24 de dezembro de 2009

O NATAL É UMA FESTA TRISTE


A aproximação do Natal deixa-me melancólica, nostálgica e metida numa alegria triste! Sim, parece paradoxal, mas é assim mesmo que me sinto. Gosto da decoração, das luzes, dos cânticos, do Papai Noel (já tão sem mistério, tão desgastado pela ganância que o multiplica em cada esquina e o vulgariza). Mas abomino a farra com presentes que, de há muito perdeu sua carga simbólica, para se tornar a alegria dos comerciantes.

Eu gostava dos Natal de minha juventude, quanto todos eram vivos e a ceia natalina era, de fato, um momento de reencontro familiar, de confraternização e de alegria. Meu último Natal assim celebrado foi em 1992. No ano seguinte, perdi meu Adriano na quadra natalina, em uma Lisboa engalanada com as luzes e as alegorias da época. A partir dali, o Natal passou a ser uma festa triste para mim. É quando mais me vem a lembrança dele, com ela vem a saudade daquela pessoa linda e a menos imperfeita que conheci na vida.

Sim, a Vida deu-me para completar a minha alma o coração mais leal, amoroso e mais dedicado que poderia ambicionar. E que ficou como padrão, não por via de necrófilo culto, mas porque a própria vida nada oferece que possa empalidecer aquela luz benéfica e bendita, que me aqueceu para sempre a alma.

Ainda bem que estava sozinha, nesta tarde crepuscular, apreciando o sol que se punha por trás das dunas ao longe, dourando as águas do rio Potengi que serpenteia lá abaixo e à direita do prédio onde resido, rumo ao mar.

Na contemplação daquela beleza de fim do dia, podia a fundo evocá-lo. Subitamente, a sua memória adentrou-me a consciência como um raio de luz diurno, rápido, penetrante. Aqui estava, há anos que já lá se vão, com a sua presença ao meu lado, antes de retornarmos a Lisboa.

Ele está dentro de mim como num santuário. Ocupa a minha capela-mor, e todos os outros afetos que viessem não seriam mais que diminutas capelas, que floresceriam apenas à volta da parte grande e indissolúvel deste Amor que me enriqueceu para sempre a vida - Queridíssimo Adriano.


A FESTA TRISTE...

Não, o Natal não é uma festa alegre,
é uma festa triste.
De repente as crianças (logo as crianças!)
separam o mundo em duas metades desiguais:
- de um lado, a abastança, indiferente ou piedosa;
do outro, a necessidade, a mendigar seus restos
como há milênios faz...

As crianças (logo as crianças!)
Algumas com presentes, brinquedos, esperanças,
e as puras alegrias que o bom Velhinho
lhes traz do céu;
outras, sem terem nada, e mesmo tendo pais,
são "órfãos do Natal",
não tem Papai Noel...

Não. Neste mundo como está,
(neste mundo profano
que a um olhar mais humano
não resiste),
o Natal pode ser uma festa,
(quem contesta?)
mas é uma festa triste...

( Poema de J. G. de Araujo Jorge
in " O Poeta Na Praça " - 1981 )


6 comentários :

Mariquinha disse...

Linda homenagem ao seu amado Adriano, amiga. Com certeza vcs foram muito felizes!

Eva disse...

OI, MARIQUINHA

É, principalmente no Natal, eu me lembro muito dele e sinto saudades de mim, de nós dois, in illo tempore... É a vida... nada podemos fazer para mudar o seu curso, sua finitude.

Jane disse...

Eva, primeiro pensei: "Quem sou eu para dizer que o Natal não precisa ser triste?"
O Adriano deve SER uma pessoa e uma alma maravilhosa, pelo jeito que vc o retratou.
Eu tenho um filho e mais ninguém.
Todos já se foram e anos depois os natais eram tristes, até que as lembranças boas ficaram tão vívidas, que hoje mesmo, estava conversando com uma amiga e me lembrando dos carinhos e coisas engraçadas que meus pais e ex- amor faziam comigo.Isto tornou minha alma mais leve e agradecida a Deus por ter tido a sorte de estas pessoas terem estado na minha vida.
Tomara que seu próximo Natal seja alegre e leve.
Te gosto e te desejo todas as alegrias de ontem, de hoje e de amanhã
bjk
Jane

maria teresa disse...

Eva, qdo a gente chega aqui pra ler seus lindos textos não pode sequer imaginar o que se esconde por tras de cada uma das blogueiras que nos divertem, não serei eu a achar que a vida continua,pq ela está aí!
quero só brindar a vida contigo, e que Deus nos ilumine e conforte nas nossa pequenas agrurias, estou mto contente de ter conhecido tanta gente nesse ano que sentem e tem problemas igual a mim, pq lia vcs antigamente sempre achando que vcs eram pessoas que não tinham problemas, hj sei que todas nós de umaforma ou de outra trasemos nos nossos corações sentimentos nem sempre revelados, um grande beijo pra vc querida!

Eva disse...

JANE
Eu escondo muito bem, da minha família, esse meu sentimento em relação ao Natal. É um sentimento muito fundo, mas suave, não chega a me deprimir ou chorar. Não! Até diverti-me muito no almoço de hoje. Mas não nego que retornei dele com um aperto no peito: minha irmã (82) está muito fragilizada, anda com ajuda de duas pessoas... Apenas, eu não cultivo tristezas, tampouco pensamentos negativos. Trato logo de fazer uns minutos de meditação, esvaziando a mente do que me puxa para baixo. Reafirmo que tudo está de acordo com o plano perfeito que Deus reservou para minha atormentada e maravilhosa vida.

Eva disse...

MARIA TERESA, minha amiga querida, acredito que não exista ser humano que não tenha suas amarguras, seus maus momentos, suas vicissitudes e tormentos. Afinal, somos espíritos retornados com muitos resgates a cumprir, de vidas passadas. Por compreender essa verdade, nunca maldigo meus dissabores e sempre exulto com meus momentos felizes. Somos espíritos rebeldes, sem umas boas trauletadas não aprenderemos e, comsequentemente, não cresceremos. Portanto... Viva a Vida! Glória a Deus por ainda estarmo vivas para melhorarmos mais, crescermos mais e retornemos menos vezes ao planetinha terra.