10 de janeiro de 2020

A Mística do Corpo: Eros Liberto!

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De repente, senti saudades da poesia que por tantos anos de magistério vivenciei com meus alunos, fruindo prazerosamente os sentimentos e os pensamentos mais profundos dos poetas. 
Feminina e Plural é um blog de variedades triviais, interessado em assuntos feminino e visando o entretenimento. Portanto, não parece haver nele espaço para a literatura! Será? Eva não tem existência própria, outra mão escreve por ela, outra mente pensa por ela, outro coração comanda seus sentimentos. Eva é apenas um alter-ego, a vertente jovem de uma outra mulher que, perplexa, viu os anos passarem sem que a jovem que nela havia se fosse embora. E essa jovem ama a literatura e está um tanto cansada de trivialidades.

Assim, hoje, Eva abre espaço para a poesia escrita por uma mulher talentosa e sensível. Vamos aos versos?

Da minha estréia na blogosfera até chegar à descoberta de que nem tudo nela é uma viagem errante através de uma nebulosa, na qual nada realmente gratificante e proveitoso há para oferecer, levou um alargado e desperdiçado tempo que, graças a vida, já não passa de poeira de vagas lembranças destinadas à terra do olvido absoluto. Na medida em que, em minhas deambulações, fui descobrindo o lado luminoso e fascinante que existe no mundo virtual, retomei o entusiasmo por este universo paralelo que se abre em possibilidades múltiplas de realizações e de contatos sociais muito gratificantes.
Todavia, o que não esperava encontrar era o elo quase perdido com a literatura feminina brasileira. E ele ali estava, diante de mim, na melhor e mais prazerosa surpresa que foi, para mim, a descoberta de mulheres escritoras, talentosas e inteligentes, autoras de poesias, narrativas de ficção e crônicas de grande interesse e qualidade estético-literários. Apaixonada pela literatura, especialmente a que é produzida pelas mulheres, senti-me feliz por ter encontrado o porto seguro que buscava na leitura dos textos de Glória Tupper, de Mariza Lourenço e de Layla Lauar, três talentosas escritoras e mulheres de personalidades fortes, modernas e antenadas com formas de poetar em voga nos horizontes da melhor expressão literária.
Todavia, antes de entrar na apresentação e comentários dos textos poéticos de minha amiga Glória Tupper necessário se faz algumas ponderações sobre a poesia erótica, gênero dominante do discurso da escritora, como é no de tantas mulheres que ousaram e ousam, desenvoltas e cheias de dignidade, libertarem-se dos espartilhos da auto-censura, do receio de exteriorizarem suas emoções, seus sentimentos e os seus multifacetados desejos vividos e/ou imaginados.
A poesia de Glória Tupper se inscreve na vertente erótica do lirismo contemporâneo, desenvolvendo a temática do corpo liberto dos tentáculos da repressão. Ela segue pelos caminhos libertários dos que fazem uma literatura transgressiva em relação aos tabus culturais e religiosos que interditaram durante séculos, principalmente à mulher, a expressão da sua sensualidade. Com efeito, Glória busca exatamente realizar uma literatura que se erga como um libelo em favor da liberdade de expressão. Se tivesse tentado publicar tais poesias até a década de cinqüenta do século XX, decerto teria sido esmagada pela crítica defensora da moral (falsa moral) e dos bons costumes, como foram tantas escritoras até meados do século passado.
Vale lembrar que, apesar da revolução modernista, somente após a segunda guerra mundial as mulheres começaram a invadir o círculo fechado da literatura. No início, ainda timidamente, depois com ímpeto e atitude, figuras femininas notáveis estreavam nas letras, não apenas em quantidade surpreendente como em qualidade excepcional. Nas obras destas poetas, além da evidente identificação com as “novidades” estéticas e temáticas trazidas ou ressuscitadas pelos modernistas, avulta a retomada do discurso erótico inaugurado no lirismo feminino português por Florbela Espanca e Judith Teixeira e, no Brasil, por Gilka Machado. Tal retomada foi, talvez, uma tomada de consciência por parte das mulheres do quanto ainda havia de repressão no que toca a expressão da sexualidade feminina, seja na vivência íntima de cada uma, seja do próprio discurso literário, amordaçado para qualquer manifestação erótica por parte dos ideólogos e defensores da moral e dos bons costumes.
Nas derradeiras décadas do século XX, as poetas já não se adequavam ao desgastado figurino da poesia confessional, da expressão sentimental, mais das vezes voltado para a retórica da infelicidade, da dor e das lágrimas que vinha ameaçando perpetuar-se no lirismo feminino. A poesia da geração de mulheres surgida após a revolução modernista, especialmente em Portugal, nutrira-se na seiva de uma consciência mais aguçada acerca da realidade do amor, da verdade do corpo, do direito de ser mulher e, principalmente, da urgência de um grito de independência, de busca da plena liberdade de expressão. O lirismo feminino assumiu uma dimensão vivencial, revelou-se na plenitude de sua humanidade e temporalidade. Esta poesia quase não fala de dor, fala de amor, de desejo, de luxúria, de prazer e de felicidade. Nela a expressão do amor sensual é uma “festa do corpo”, como bem testemunha a poesia de Glória Tupper:

Highway
Meus espaços te anseiam
Todo meu corpo arde
Em tremores de desejo
Em lembranças de prazeres vividos.
Conheces meus caminhos
Que se abrem em via de mão única
E por onde percorres com perícia,
Por onde passeias tuas audácias
E onde não há sinal fechado.
Mas se houver, ah, por favor!
Ultrapasse!

A partir da década de 70, a liberdade da linguagem acentuou-se. As escritoras tomaram as rédeas do seu discurso, libertam a linguagem feminina de todas as interdições e tabus milenares, deram expressão poética ao erotismo, enriquecem o repertório temático da poesia com temas transbordantes de sentimento estético da sensualidade, do desejo, da fruição dos prazeres do corpo. A nova linguagem obedecia a uma nova gramática, exigia que se lesse a poesia com o espírito despojado de malícia, da noção cerceadora do pecado e livre do peso da culpa.

Cadência
Gosto quando se enrosca
Entre minhas pernas
E me faz arrepiar.
Gosto quando suprime meus sentidos
Num gozo alucinante
Onde tudo é pulsar.
Gosto de suas palavras doce
Tanto quanto amo as mais sórdidas.
Com você sou namorada
Me transformo em amante
Viro mulher da vida
E voto a ser menina.
Porque seu corpo é uma máquina perfeita
Que pulsa na cadência
Exata, precisa
Do meu infinito desejo.

Talvez pela primeira vez, na poesia feminina posterior aos anos cinquenta, a mulher tenha ousado expressar o seu encantamento com o corpo do homem, com a beleza das formas masculinas. Já não é mais o homem o único a falar do seu desejo, da sedução do corpo da mulher amada, do mágico delírio que o seu toque desata. 
Glória Tupper, ousadamente, resgata a sexualidade feminina, a sua participação ativa na relação amorosa (Quero teu cheiro de macho / invadindo meu quarto) o seu direito ao prazer e à realização das suas fantasias eróticas (Suga minha boca / Orfã de você / Passeia pelo meu corpo/ Como se não conhecesse o caminho a percorre / Segura minha cintura / E se encaixa em mim / Fundindo seu corpo ao meu / num frenesi alucinado e sem fim/ me explora, me usa) tudo em sua poesia é um canto de exaltação à harmonia do corpo com o amor que impulsiona o desejo, ela promove somente a libertação do discurso poético feminino das amarras que bloqueavam ou interditavam a verbalização da sua sexualidade, a menção de sua intimidade, ela também libera o corpo, as partes do corpo e seus segredos.

Melodia
Quero teu cheiro de macho
Invadindo meu quarto
Impregnando meus lençóis
Penetrando em minha pele.
Quero tua indecência
Tua falta de inocência,
Teu despudor escancarado:
Quando me tomas como mulher.
Quero não saber onde começo
Nem onde terminas
Só quero que seja contínuo
E inesgotável.
Somos dois instrumentos
Produzindo os mesmos sons
Sou ritmo. Es cadência
Somos melodia de amor.

O homem deixa de ocupar o papel principal na ribalta amorosa, o que conduz o ato sexual e a busca do seu próprio prazer, agora conduzido também pela mulher, pelos caminhos das suas fantasias eróticas e das exigências do seu desejo.

Voraz
Te quero desde sempre
Então quando começar
Não pare.
Comece devagar
Como se fosse
A primeira vez
Depois intensifique
A dose de carinho
Faça-se urgente
Voraz e faminto
E acalme a fome
Que tenho de ti.

Ela já não se coloca como a aprendiz de outrora. Ela conhece o próprio corpo, ela sabe onde o desejo se agita.

Êxtase
Sopra tua vida para dentro de mim
Aquece-me com teu calor
E me faz transbordar de prazer.
Despeja teu desejo e me sacia
Porque de ti quero beber até a última gota
Quero esgotar todos os teus músculos
Acelerar tua respiração
Resgatar tua loucura
Por trás da sanidade aparente.
Quero-te homem e menino
Segurando teu desejo
Esperando meu momento
Para juntos explodirmos
Num êxtase sem fim.

O homem é o parceiro e o cúmplice da mulher na aventura suprema da fruição recíproca dos prazeres da carne e do amor correspondido ou consentido. É de amor que a poeta fala em seus poemas, mas de um amor total que liga o homem e a mulher por todas as pontas do ser com laços indestramáveis, cujas laçadas seguras fundem e confundem os corpos e os sentimentos, a força do desejo e a intensidade do amor, as delícias da carne e os deleites do coração, é o amor nivelador das diferenças, é o sentimento que desconhece o preconceito.

Lord Negro
A voz macia e pausada
Lentamente invade meus sentidos
E me transporta para outras dimensões
Como se bailasse dentro dos meus ouvidos
Seus olhos negros me fitam
Sinceros, profundos
Desnudam a minha alma
E penetram nos meus sonhos.
Delicado e másculo
Sensível e forte
Doce e viril
Suave e intenso

Glória procura desconstruir a imagem tradicional da mulher, por resgatar a identidade feminina. O homem perde o seu estatuto de parte ativa, a quem cabe conduzir a relação a dois. Ao contrário disto, ele é o parceiro, o cúmplice da mulher na aventura suprema da fruição recíproca dos prazeres da carne e do amor correspondido ou consentido.

Renda-me
Toma de assalto a minha alma
Rouba meu desejo proibido
E me faz tremer... de desejo.
Domina-me
Imobiliza minhas pernas
Invade a minha boca
E vasculha os bolsos do meu corpo.
Assalta-me
Tira de mim minhas riquezas
E eu me entrego incondicionalmente
Rendo-me a você.

A mulher coloca-se na posição de defensora do seu prazer, ousando ensinar ao parceiro, conduzi-lo na vertigem da viagem pelo corpo aceso pelo desejo, subvertendo assim a tradição milenar que impunha à mulher uma atitude submissa, a aceitação passiva de mero objeto do prazer masculino. Feminina e plural, Glória representa muito bem a figura da mulher contemporânea, intensa, forte, resoluta, feminina e cheia de orgulhosa certeza de que ser mulher não é fácil, que desbravar os caminhos da liberdade e da auto afirmação pode ser uma dolorosa experiência, mas que é a trilha mais curta para se chegar à sabedoria.
Na verdade, o desdobramento do seu ser “feminino e singular”, por ser único e insubstituível, em uma pluralidade de diversificados papéis exigidos pela própria vida, é o que faz de Glória Tupper uma legítima mulher deste aquariano e libertador terceiro milênio: um ser ímpar, reinventado e reconstruído por ela mesma a cada dia, com a coragem e a dignidade de um ser dotado de insondável magia que, mesmo enfrentando tempestades ou calmarias, sabe que é preciso navegar. Sempre!
Autora das análises dos textos: ZCMC (Eva/RN).
Fonte:http://vialactealiteratura.blogspot.com.br

O blog com as poesias de Glória Tupper não foi encontrado. Glória é a administradora do blog MariquinhaMaricota/  Ela nunca publicou suas maravilhosas poesias. http://mariquinhamaricotas.blogspot.com.br

29 de dezembro de 2019

A mulher africana mostra seu esplendor e beleza no Miss Universo

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Eu já devia ter escrito uma postagem em homenagem à Miss Africa do Sul, consagrada como a mais bela do Universo, no concurso realizado nos Estados Unidos há cerca de um mês.
Na verdade a África do Sul vence o concurso de Miss Universo pela terceira vez.


Zozibini Tunzi desbancou Miss Porto Rico e Miss México, na final realizada em Atlanta, nos EUA.



A representante da África prevaleceu sobre a porto-riquenha Madison Anderson e à mexicana Sofía Aragón, que ficaram em segundo e terceiro lugar, respectivamente.
Tunzi, de 26 anos, foi a competidora mais completa nos testes do desfile e nas intervenções e respostas às perguntas do comitê de seleção.
A sul-africana sucedeu a filipina Catriona Gray, como vencedora do Miss Universo, que foi coroada no ano passado.
Essa é a terceira coroa de Miss Universo que a África do Sul leva. O país já havia triunfado no concurso de beleza em 2017 com Demi-Leigh Nel-Peters e em 1978 com Margaret Gardiner. 
No concurso de hoje, que tinha Steve Harvey como mestre de cerimônias, Tunzi se destacou em frente ao microfone, principalmente por suas idéias contra o racismo e em defesa da igualdade.
A festa teve uma participação latina importante, quatro representantes da América Latina estavam entre os dez finalistas: México, Porto Rico, Colômbia e Peru. Brasil, Venezuela e República Dominicana ficaram entre os 20 finalistas.
A nova Miss Universo é lindíssima, elegante, estilosa, culta e esbanja simpatia e graciosidade.
Mas, não é somente na África do sul que as deusas de ébano brilham em beleza e feminilidade. Também no Brasil já tivemos no Brasil misses lindíssimas em sua negritude e elegância, como Sabrina, a Miss São Paulo 2016:


Sabrina participou do reality A Fazenda11. Linda e educada, destacava-se pela maneira elegante como se sentava, caminhava e se expressava. Seu porte esguio e altura incomum completavam sua beleza.

26 de abril de 2019

Paula é o triste retrato do Brasil racista e enrustido.

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Paula Sperling, do BBB19, é o triste retrato do Brasil racista e enrustido.
A campeona vomita vários comentários racistas, mas depois se desculpa: "Foi sem querer, eu sou assim". Quantas pessoas iguais à Paula você não conhece?
Você sabe o que é racismo estrutural? É a violência não direta do Estado às pessoas negras. Ela está intrínseca na sociedade e soma-se àquela violência direta, como agressões verbais e até mesmo físicas. Olhar para o lado no ambiente de trabalho ou na universidade e não enxergar nenhum negro é resultado do racismo estrutural que continua pregando que pessoas afro não são capazes e não devem ter lugar (principalmente de destaque) em uma esfera dominada por brancos – por muitos entendidos como a “elite intelectual”.
O Ministro da educação Ricardo Vélez disse recentemente que “todos aqueles que quiserem entrar na faculdade estão em pé de igualdade”, justificando sua fala anterior que dizia que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual, que não é a mesma elite econômica”. No Brasil, a porcentagem de negros que vivem em zona de pobreza e miséria dobrou no Brasil nos últimos cinco anos, de acordo com relatório realizado pela ONG ActionAid em 2018. Então, não é justo dizer que todos estão em pé de igualdade, porque eles não estão e porque muito disso se deve ao racismo estrutural que faz cada vez mais vítimas no país.
No último ano, segundo dados da Secretaria da Segurança Pública, os crimes de racismo cresceram 29% só em São Paulo. Para o filósofo Silvio Almeida, “o racismo é uma forma de racionalidade”. Na maioria das vezes, as pessoas racistas sabem que são racistas. São raros os casos em que elas fazem um comentário na ingenuidade. O racismo pode ser estimulado pela falta de informação, mas, no fundo, quem pratica o racismo sabe o que está fazendo ou dizendo.
Recentemente, algumas pessoas estavam acusando a Rede Globo de mascarar o racismo de Paula von Sperling no BBB19. De acordo com alguns espectadores do reality show, a emissora estava editando as falas da bacharel em Direito, fazendo-a se passar por uma garota sem noção e do bem, quando, na verdade, Paula tem muita noção das maldades que perpetua.
Como foi relatado anteriormente aqui no site CAPRICHO no blog do Big Brother Brasil, escrito pelo jornalista Vand Vieira, a sister já fez os seguintes comentários dentro da casa: “pensei que fosse chegar mó faveladão”, “cabelo ruim”, “humor negro é você começar a pegar uma pessoa negra e fazer piadinha contra ela”, “pra mim cota é uma forma de racismo do Estado” e “começa a denegrir a pessoa por ser loira”. Visivelmente, a bacharel em Direito precisa de um aulão de história para entender algumas coisas básicas sobre o racismo. Mas vamos lá:
1.) ao se referir sobre a pessoa que estava cometendo o crime como “faveladão”, a sister deixa claro que faz parte daquela parcela da sociedade brasileira que generaliza os moradores de comunidades e acredita que todos eles são bandidos e que “bandido bom é bandido morto”. Na sequência, Paula deixa claro que ficou surpresa ao descobrir que o criminoso, na verdade, era um rapaz branco, que inclusive já tinha feito intercâmbio. Pelo tom da voz, é possível perceber que o crime foi suavizado porque, afinal, era um “jovem branco de classe média” e não um “bandido negro”.
2.) a participante do BBB19 parou no tempo, assim como tantas outras pessoas, e ainda acha que é aceitável usar a expressão “cabelo ruim”. Isso não existe, assim como não existe “cabelo bom”. O que existe são diferentes tipos de fio, que variam do liso ao crespo. “Ruim é o preconceito”, alertou Gabi, outra participante do reality ao ouvir o comentário.
3.) sobre a frase em que se refere ao humor negro, não precisamos nem dizer que muitos erros foram cometidos, né? Ou melhor, precisamos, sim! O humor negro já foi considerado uma subdivisão do gênero comédia, mas hoje a expressão não é mais bem vista, pois os negros não estão mais aceitando calados as chacotas que anteriormente eram vistas como “piadas”. Aliás, ao dizer que humor negro é pegar uma pessoa negra e fazer piadinha contra ela, Paula deixa implícito que considera o black face, por exemplo, uma forma de ~zoeirinha~. Atitudes e comentários racistas não podem ser vistos como “simples piadinhas” porque, caso contrário, voltamos ao tempo em que os negros eram ainda mais segregados e vítimas de racismo enrustido em forma de humor. A comédia não justifica tudo e todos – nem o politicamente incorreto.
4.) cota racial não é uma forma de racismo do Estado, muito pelo contrário! Ela é uma ação afirmativa temporária que luta diretamente contra o racismo estrutural. Lembra que conversamos sobre os negros e indígenas não estarem em pé de igualdade com um branco que estudou em escola privada a vida toda e ia de motorista para o colégio? Então… A medida garante que cada vez mais grupos segregados, como o dos negros, pardos e indígenas, tenham chances de pertencer a um espaço essencialmente dominado por brancos e tenham oportunidades mais justas. “Cota não é esmola”.
5.) Visivelmente, Paula von Sperling acredita em racismo inverso – assim como tantas pessoas por aí. Como chegamos a essa conclusão? Bem, ela disse que pessoas loiras também podem ser “denegridas” (está aí um termo racista) por serem loiras, deixando subentendido que esse tipo de ofensa se iguala a um comentário racista que um negro pode receber no seu dia a dia. Apesar de os participantes Gabi e Rodrigo explicarem que isso não pode ser também classificado como racismo, a participante, quando longe desses que usaram argumentos para desvalidar seu comentário, voltou a pensar e agir como se nada tivesse sido aprendido. Não existe racismo inverso porque brancos não são e nunca foram escravizados pela sociedade nem amarrados a troncos ou colocados para morar em senzalas. Nenhum branco é morto por sua cor de pele.
Muitos chocam-se com a atitude da bacharela, mas a verdade é que ela representa uma grande parcela da sociedade que acredita que racismo é mimimi, que cotas não deveriam existir, que cabelo bom é só o liso, que todo “favelado” é ladrão, que as pessoas estão muito chatas e problematizando tudo, e que racismo inverso é uma realidade. E não pense que Paula é uma menina ingênua que não sabe o que diz. Assim como toda essa parcela da sociedade, a bacharel em Direito tem plena consciência de suas falas e, no fundo, sabe que, na verdade, usa todas essas justificativas para encobrir o racismo que pratica porque, de certa forma, sente que seu lugar de privilegiada pode ficar ameaçado. E tudo isso fica bastante claro na seguinte fala da participante: “Desculpa, Brasil, foi sem querer. Eu sou assim desde pequena(…) Mas é legal(…) Eu só falei a verdade”.
Para a Paula, ser racista é falar a verdade ou ter a coragem de dizer o que os outros pensam e não têm coragem de falar. Falta filtro, mas não falta consciência. Paula sabe. Aquele seu parente também. E o Estado também. Não é sem querer querendo. Mas é aquela coisa, né? O Brasil não é racista, “até tem amigos que são negros”.

Por Isabella Otto
Fonte: Capricho

24 de abril de 2019

A Dona do Pedaço

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Fernanda Montenegro completa 90 anos no dia 16 de outubro e mantém a rotina de emendar um trabalho no outro; isso inclui a jornada na televisão. 
Salvo engano, já deve ter ultrapassado a marca de 50, nestes 75 anos de carreira. Todos a querem em seus elencos.
Em "A Dona do Pedaço", próxima novela das nove, outra dela com Walcyr Carrasco, que estreia em 20 de maio, a atriz vai aparecer como Dulce, avó da protagonista Maria da Paz (Juliana Paes), alguém que faz de tudo para proteger a neta.
Natural que nesta altura da vida, tire um pouco o pé do acelerador e, por exemplo, tenha uma carga menor na substituta de "O Sétimo Guardião". 
A Globo ainda não informa exatamente em quantos capítulos sua personagem aparecerá na história. A ordem é fazer um suspense.
Fernanda, como se observa, é um exemplo a ser seguido. E faz tempo. Dedicada ao seu ofício. Principalmente nesta era de rede social, muitos dos nossos artistas, em especial os jovens, poderiam se espelhar um pouco nela. Na sua trajetória. A veterana é uma das pioneiras e maiores atrizes da história da nossa dramaturgia e foi a única do país a concorrer ao Oscar, por seu trabalho em "Central do Brasil"(1998).

É verdadeiramente a dona do pedaço.

Flávio Ricco
Colunista do UOL*
20/04/2019 00h05
*Colaborou José Carlos Nery