5 de julho de 2009

Hoje a festa é minha, hoje a festa é nossa!



Minhas amigas e meus amigos, preciso partilhar com vocês a minha grande e inenarrável alegria dessa tarde, talvez a maior já sentida desde 2005. Vocês imaginem aquele tipo de alegria profunda que sentimos ao ver diante dos nossos olhos o objeto de nosso desejo, inteiraço... Ai, Jesus! Imaginem o que foi poder tocá-lo, passar-lhe as mãos, aconchegá-lo junto ao coração, num abraço que era mais da alma que do corpo. Imaginem o que significa realizar um grande sonho, tantas vezes adiado, já julgado perdido, como tantos outros que se dispersaram na poeira das estrelas... E, de repente, o sonho engavetado, relegado ao olvido, ressurgiu das sombras com a força e o ímpeto das grandes tempestades.


Ainda estou com um sorrisão dentro de mim. Já pulei, já chorei, já dei risadas e muitos beijinhos nele. Já fiquei olhando embevecida, chamei-o de lindo, de fofo, de tesão de minha alma, deitei na cama com ele sobre meu coração, deixei-o no meu colo bem juntinho de meu peito, enquanto passavam em minha mente minha luta por ele, em Lisboa, no Rio, em Recife...foram tantas as viagens, atravessando o oceano inexorável e profundo que me separava das possibilidades de realizar meu projeto. Quase sufoquei de emoção ao sentir o seu cheiro especialíssimo de papel novo, de tipografia, cheiro de azul, a cor do beijo!


Pois é, toda essa emoção tomou-me de assalto, ao receber um pacote, abri-lo e deparar-me com o volume do novo livro, recém impresso pela Editora Mulheres, em Santa Catarina, que escrevi juntamente com duas outras professoras, numa parceria feliz entre três amigas que quiseram estudar, pesquisar e crescerem juntas na literatura e no esforço pela valorização da Mulher. A pesquisa inicial data do ano de 1985. Começou nos acervos bibliotecários portugueses do Brasil, continuando em Portugal, com o apoio de uma bolsa de pesquisa concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian que me possibilitou dar prosseguimento às pesquisas em algumas bibliotecas de cidades portuguesas.

Em 1987, os trabalhos foram suspensos devido ao afastamento de duas das pesquisadoras para realizarem o doutorado: Constância foi para a USP e eu fui para Lisboa. Retomamos as pesquisas cinco anos depois, mas as dificuldades foram aparecendo, o desânimo chegando, uma das pesquisadoras -Diva Cunha- aposentou-se e, pouco depois, a segunda parceira – Constância - pediu a aposentadoria e mudou-se para Belo Horizonte, sua terra de origem, onde reside. Neste ponto, tornou-se impossível continuar e o projeto foi engavetado até 2007, quando decidimos não abrir mão do nosso sonho, já adiado para este século. Convidamos Conceição para completar o trio, tocamos a trabalhar e o resultado aí está. Obrigada, Deus!


Este Dicionário reúne cerca de dois mil verbetes com informações biobibliográficas acerca de escritoras portuguesas surgidas a partir do século XV até à contemporaneidade, incluindo as nascidas nas ex-colônias e no estrangeiro que publicaram suas obras em Portugal. Com ele, suas autoras, pretendem resgatar do esquecimento as escritoras e as suas obras relegadas ao olvido e ao limbo literário pelo descaso de historiadores e estudiosos da literatura que, sistematicamente, ignora suas existências em suas publicações. Nosso objetivo é contribuir para tornar a Literatura Portuguesa (bem como a brilhante trajetória literária das mulheres lusitanas nas letras) mais conhecida e mais apreciada.

Simone Pereira Schmidt (UFSC/CNPq) escreveu, na orelha do livro, palavras que fazem justiça ao nosso trabalho. É estupenda a sutileza com que ela captou o espírito do nosso projeto, como percebeu a importância do nosso trabalho para as pesquisas literárias.

“Tinham razão as famosas três Marias ao se perguntarem, nos anos 70 que já são história: ”mas o que pode a literatura? Ou antes: o que podem as palavras?´ Sua pergunta ecoava num tempo em que as mulheres, em Portugal, ainda lutavam contra um espesso manto de silêncio, a encobrir cada uma de suas palavras, de forma aberta ou velada, mas de todo modo violenta. No entanto, sabemos hoje, as mulheres em Portugal, como em outras partes do mundo, sempre encontraram formas de se expressar, anda que silenciadas, censuradas ou simplesmente ignoradas. Já na origem dessa literatura, encontramos seus cantos de trabalho, de amor e de folguedos, que serão incorporados à tradição como “cantigas de amigo”.

Na forma como tais cantigas passou a integrar o cânone ocidental, percebemos, como assinala Ria Lemaire, o processo de desaparecimento de ricas tradições orais em que predominava a autoria feminina. Este processo se estende, de modo mais ou menos contínuo, perpetuando a hegemonia de uma cultura escrita e predominantemente masculina, até a década de 50, não se encontram nesta tradição literária, os rastros de uma genealogia feminina. Nesse sentido, o trabalho de Constância Lima Duarte, Conceição Flores e Zenóbia Collares Moreira, dedicado a recolher, reunir e dar forma inteligente e sensível às informações dispersas sobre tantas escritoras em Portugal, vem alterar significantemente esta história de imperdoáveis esquecimentos e lacunas.

Do século XV até o presente, encontramos, neste Dicionário de Escritoras Portuguesas, as vozes de duas mil mulheres a manifestarem suas lutas e sofrimentos, suas alegrias e amores. Encontramos, enfim, o registro escrito, nas mais variadas formas, de uma experiência feminina que, infelizmente, não se perdeu. Resultado de um respeitável empreendimento de pesquisa, este Dicionário nomeia e celebra as escritoras do passado, e dialoga também, com igual vibração e rigor acadêmico, com as escritoras do presente. Tal procedimento nos faz recordar as palavras de Virginia Woolf, quando afirmava que, através do nosso trabalho, a “irmã de Shakespeare” encontra sua chance de nascer, “extraindo sua vida das vidas das desconhecidas que foram suas precursoras”.

A concretização de um projeto como este renova nossa certeza no caráter transformador da crítica feminista, que alterou definitivamente o cenário da história literária, promovendo, como vemos nestas páginas, o encontro das escritoras que, em diferentes momentos da história, recusaram o silêncio”.

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