6 de agosto de 2018

Gabriela Loran , atriz transgênero...


A história de Gabriela Loran é composta de nuances que a fizeram redescobrir seus tons. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e lilás são cores vivas, mas nem todos são capazes de enxergar. O preconceito é cinza e embaça a vista de quem não abre os olhos para a diversidade. Antes de se tornar a primeira atriz transgênero de “Malhação” em 23 anos da novela, Gabriela, de 25, enfrentou, sozinha, em seu quarto, dilemas, crises existenciais e buscou entender o que estava acontecendo com sua vida.

— Ficava chorando no banheiro, perguntando o que eu era. Esses foram momentos em que era Gabriela e não sabia — diz ela, que não se identificava com o gênero de seu nascimento, o masculino.

Para ver surgir o arco-íris no céu, precisava se sentir mulher. Teve que esperar o temporal passar e deixar sua luz refletir as cores. Três anos depois, ela está ciente e segura de sua identidade e milita em prol da população LGBTI+na vida real e na ficção, onde a personagem, Priscila, mistura-se às suas vivências pessoais (para entender melhor os termos relacionados à causa, veja o glossário ao lado). Neste ensaio de moda, ela posa com as cores do símbolo da diversidade e reforça a importância de ocupar cada vez mais espaços:

— Defendo a representatividade, a chance de ver pessoas trans incluídas em todos os nichos da sociedade. Eu me identifico como mulher transgênero. Tenho o órgão sexual com o qual nasci e não tive disforia de gênero. Mas faço questão de me colocar também como travesti (e não como transexual) para lutar contra a marginalização desse termo. Assim, pessoas iguais a mim podem ver que é possível encontrar um espaço profissional. Não quero que ninguém me aceite. Só preciso que me respeitem. A partir do respeito, surge o entendimento e a admiração.



Bailarina, técnica em segurança do trabalho, poetisa, youtuber, DJ, bailarina, atriz formada pela Casa das Artes de Laranjeiras e fluente em três idiomas (inglês, espanhol e português), Gabriela é múltipla, inquieta e motivo de orgulho. Filha da gerente de supermercados Maria das Dores e do motorista aposentado Manoel Oliveira, a ex-moradora de São Gonçalo reconhece que o interesse pelos estudos e a base familiar foram significantes em seu caminho:
— Meus pais sempre foram preocupados com a educação. Fui a primeira pessoa da minha família a se formar. Recentemente, minha mãe começou a estudar Direito. As coisas nunca foram fáceis. Na época da faculdade, para morar na capital, bancar os estudos e os tratamentos hormonais e estéticos que eu gostaria de fazer, fui garçonete no Outback. Estudava de manhã, entrava no restaurante às 17h e saia às 3h da manhã.
Ainda assim, as oportunidades que surgiram após tamanha dedicação, um sem-número de “nãos” e uma grande dose de preconceito da sociedade transformaram a atriz numa exceção à regra.
— É importante reconhecer os privilégios que tive. Muita gente me questiona: “Como você conseguiu estudar e ter espaço profissional, e outras trans não?”. É muito difícil entrar numa sala de aula sem o seu nome social corrigido no registro, ser identificada de uma maneira como você não se reconhece e virar chacota na turma. O bullying e o preconceito fazem muita gente desistir — frisa.


A própria Gabriela, que há dois meses viu o nome social estampar sua nova certidão de nascimento, já passou por situações vexatórias de preconceito em locais públicos do Rio. Dois anos atrás, quando esperava as amigas no banheiro feminino de um shopping, foi ofendida por uma visitante e ameaçada de expulsão por um segurança.
— Já sofri inúmeros episódios de transfobia. O funcionário do shopping disse que eu poderia constranger outros clientes. “Eu não sou uma cliente?”, rebati. E ele falou: “Vamos parar de palhaçada. Seria a mesma coisa se eu entrasse no banheiro feminino”. Desisti de discutir, mas mandei uma reclamação embasada em leis para a administração do shopping. É constrangedor e triste passar por situações desse tipo. A transgeneridade não é uma escolha, é uma condição de vida. Nascemos assim. A partir do momento em que assumimos a transição, temos que lidar com o medo de ver a expectativa de vida cair. Se fosse uma “opção”, quem escolheria isso? Antes de transicionar, minha expectativa de vida era de 76 anos. Quando decidi ser trans, ela caiu para 28 anos (segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia, a média de vida de uma pessoa trans no Brasil é de 27,7 anos, mais de 45 anos inferior a de pessoas cis) — lamenta.

Quando decidi transicionar, minha expectativa de vida caiu de 76 para 28 anosGabriela Loran
O teatro foi o caminho para a atriz mostrar sua nova identidade para a família e abrir as portas para muitas iguais a ela. Nas redes sociais, Gabriela lê depoimentos de outras mulheres trans que se identificam com sua trajetória.
— A primeira vez que reivindiquei ser chamada pelo nome feminino foi na peça de formatura da faculdade, em que interpretei mulheres trans na frente da plateia e dos meus pais. Eles acompanharam minha transformação, mas nunca tinha havido uma conversa. Depois do fim da apresentação, eu me emocionei ao saber que meu pai tinha dito: “Hoje foi a primeira vez em que vi minha filha no palco”.
Agora, seu Manoel vê Gabriela nos palcos, na televisão, na internet, nesta revista, e onde mais ela quiser.

Glossário de termos usados nesta reportagem:
Bullying: Atos violentos que incluem abusos físicos ou psicológicos, feitos repetitivamente, de um agressor contra sua vítima.
Cisgênero: Termo usado para descrever pessoas que não são transgêneros. “Cis-” é um prefixo em latim que significa “no mesmo lado que” e, portanto, é oposto de “trans-”. Refere-se ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o gênero atribuído ao nascer.
Intersexual: Termo para se referir a uma variedade de condições com que uma pessoa nasce, apresentando uma anatomia reprodutiva e sexual que não se ajusta às definições típicas do feminino ou do masculino. A intersexualidade acontece quando há uma discrepância entre sexo genético, glândulas sexuais e genitais.
LGBTI+: Sigla para Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexuais.
Trans: Termo que engloba travestis, transexuais e transgêneros
Transfobia: Violência e discriminação contra pessoas trans por conta de sua condição.
Transgênero: Terminologia usada para descrever quem transita entre os gêneros. São pessoas cuja identidade de gênero transcende as definições convencionais de sexualidade. Segundo Toni Reis, organizador do Manual de Comunicação LGBTI+, o termo transgênero engloba travestis e transexuais.
Transexual: Aquele que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento. As pessoas transexuais podem ser homens ou mulheres, que procuram se adequar à identidade de gênero e, geralmente (não necessariamente), gostariam de fazer a redesignação de sexo. Algumas pessoas trans recorrem a tratamentos médicos, que vão da terapia hormonal à cirurgia de redesignação sexual. São usadas as expressões homem trans e mulher trans.
Travesti: Poderia ser sinônimo de transexual, mas tem uma ressignificação a partir da luta contra o estigma da associação à prostituição. É a pessoa que nasceu com determinado sexo, ao qual foi atribuído culturalmente o gênero considerado correspondente pela sociedade, mas que passa a se identificar e construir nela mesma o gênero oposto. Em geral (não necessariamente), a pessoa travesti não quer fazer a transgenitalização. A palavra “travesti” adquiriu um teor político de ressignificação de um termo historicamente tido como pejorativo.

*Termos baseados no Manual de Comunicação LGBTI+ e em consultoria ao organizador Toni Reis, pós-doutor em Educação e ativista em Direitos Humanos.

Créditos
Fotos: Roberto Moreyra/Agência O Globo / Beleza: Duh Nunes / Produção de moda: Amanda Lacerda e Camille Magalhães


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